Esta é a vista da minha janela. São as árvores da Rua dos Andradas, ali na altura da Casa de Cultura Mario Quintana. No meu quarto tem uma porta de vidro e uma janela grande que dão pra uma sacadinha. À noite a luz dos postes ilumina as árvores e também o quarto. É uma parte decadente mas ainda bonita da cidade, e seria o melhor apartamento em que já morei se não fosse pelo barulho. Meu apê fica no quarto andar e os sons da rua chegam lá em cima amplificados. Então eu ouço os carros (suas rodas oscilando na irregularidade da rua de pedras), ouço os caminhões que abastecem os mercadinhos e restaurantes às 6 da manhã, o caminhão de lixo que passa aí pelas 2 da matina, os garis que varrem a rua também durante a madrugada, o vozerio das pessoas nos bares até depois da meia-noite e os indigentes e flanelinhas que vivem na redondeza e que muitas vezes escolhem a noite pra fazer suas farras ou acertar diferenças.
Moro hoje a duas quadras do meu trabalho. Isto é uma beleza pra um sujeito que gosta de dormir o máximo que dá. Acordo 15 minutos antes do meu horário. Almoço em casa e economizo uma grana. Poupo também o dinheiro que gastaria com passagens e evito o atrolho de ônibus e metrô nos horários de pico. No final a economia que faço não é suficiente pra pagar o aluguel, mas tudo bem, acho que ainda tá valendo.
Sou um cara não muito ligado ao tempo. Não pergunto e não me interesso pela idade das pessoas e, às vezes, até esquecia a MINHA idade (agora não mais, visto que este ano faço 40). Em algumas circunstâncias algo que aconteceu ontem, pra mim parece que foi há séculos. E vice-versa. Mas principalmente não consigo situar minha vida na cronologia dos anos. As vezes converso sobre algum assunto e alguém pergunta: em que ano foi isso? Putz... não faço a menor idéia.
Um pouco por essas, resolvi fazer um histórico da minha vida nômade. Minha mãe sempre diz que puxei à minha avó paterna, que gostava de viver se mudando. Não posso negar que mudanças me agradam, mas depois de tantas que já fiz, começo a cansar. Decididamente carregar geladeiras, mesas de mármore e dezenas de caixas pesadíssimas de livros não é a coisa mais agradável do mundo. Mas ainda tenho umas reservas de energia. Minhas mudanças até hoje ficaram limitadas ao circuito Canoas-Porto Alegre e essas sim, já encheram o saco, mas uma mudança pra muito mais longe (outro estado, outro país) ainda me anima a fazer as malas de novo.
Se acontecer, aumento este registro. Agora, como diria nosso amigo Proust, vamos à busca do tempo perdido:
Endereço I - 1989/1990 – Rua Gonçalves Dias - Centro, Canoas – Telminho com 18 anos. Morava com meu irmão River e meu amigo Leandro. O amigo foi embora logo e ficamos o River e eu curtindo a vida de rapazes independentes. O apê ficava no mesmo prédio do meu trabalho, aliás, no mesmo corredor. Jornal O Timoneiro, o mais tradicional da cidade. A MTV chegava no RGS e, enquanto meu irmão andava de skate ao som de Faith no More e Red Hot Chilli Peppers, eu tentava aprender violão.
Endereço II - 1992/1993 – Rua Cândido Machado – Centro, Canoas – Morava com meus amigos Emerson e Henrique. O Emerson também debandou logo, mas vivia lá. Assim como dezenas de outras pessoas. Foi o apê mais movimentado em que morei. A maior parte dos artistas da cidade (ou pelo menos a parte jovem destes artistas) frequentou aquele apartamento. Lá conheci também o Jéferson, que se tornaria outro grande amigo. Maconha, gurias, bebedeiras, filmes, alguns livros... alegria, enfim.
Endereço III - 1993/1994 – Rua Coronel Vicente – Centro, Canoas – Morei inicialmente sozinho, mas depois dividi com meu amigo Elias, fotógrafo do jornal onde eu então trabalhava, o Diário de Canoas. Tinha uma guitarra e uma caixinha de som. Passava horas repetindo os mesmos solos, pois tinha planos de me tornar um Joe Satriani ou um Yngwie Mallmsteen. Não me tornei.
Endereço IV – 1995/1996 – Av. Dr. Barcellos – Centro, Canoas – Morávamos eu, meu irmão River e meu amigo Jéferson. Não durou muito nem rendeu histórias pra contar. Nessa época eu ganhava um bom salário e fazia uns frilas de ilustração pra livros infantis e infanto-juvenis. Comprei um carro.
Endereço V – 1996 – Rua Muck – Centro, Canoas – Saí do jornal, vendi meu carro e decidi abrir uma empresa. Era uma sala imensa num prédio metade comercial, metade residencial. Eu morava na parte comercial, na cara dura. Investi dinheiro pra caramba no negócio, montei um estúdio que era um brinco e fui vendo a coisa naufragar aos poucos. Passado um ano fechei a birosca. Estava no SPC, Serasa, devia pro cartão de crédito e não tinha um tostão no bolso. Da empresa sobrou o computador e as mesas de mármore que eu, penosamente, arrastaria ainda por alguns endereços. Voltei pra casa dos meus pais por um tempo. Eu tinha 25. Nessa época comecei a comprar livros e ler (um hábito que havia perdido, ou que se restringia aos gibis). A leitura e a falência decididamente me tornaram uma outra pessoa. E também o nascimento da minha filha, que aconteceu neste ano.
Endereço VI – 1997/1998 – Av. Getúlio Vargas (BR-116) – Centro, Canoas – O pior apartamento onde já morei. Pior que convenci o River a ir comigo. Era o último andar de um prédio caindo aos pedaços. No verão o calor era insuportável pois o prédio não tinha telhado, a laje do edifício era o nosso teto. Em dias de chuva, por causa das rachaduras, pingava dentro de casa. O barulho da BR-116 era de enlouquecer. Fora isso o dono do prédio era um cara completamente louco. Plantava maconha nos fundos do edifício. Uma vez foi nos cobrar o aluguel (que não atrasávamos) e chegou chutando a porta. Doido de pedra. Nessa época eu continuava fodido. Sem trabalho, só pegava uns bicos que não davam pra nada. Como não tinha grana pra pagar a pensão da minha filha, compensava cuidando dela enquanto a mãe trabalhava. Quem já cuidou de criança sabe... putz, canseira. Mas foi bom, pelo menos essa fase dela eu curti.
Endereço VII – 1999/2000 – Av. Protásio Alves – Santa Cecília, Porto Alegre – Opa... finalmente Porto Alegre. A convite do meu amigo Jéferson fomos, o River e eu, dividir com ele um apê na capital. A apartamento era imenso, quase não dava acreditar. Eu continuava desempregado, mas isso não impediu que descobrisse a noite de Porto Alegre (do Bom Fim e da Cidade Baixa, pelo menos). No princípio fui relutante, mas não demorei muito a tomar gosto pela coisa. Logo arranjei trabalho numa agência de propaganda e jornalismo que atendia o Governo do Estado (companheiro Olívio – saudades daqueles tempos). Lá conheci a Zaira, que entre idas e voltas é minha chefe até hoje.
Endereço VIII – 2001/2002 – Av. Bento Martins – Altos da Bronze, Porto Alegre – Meu amigo Jéferson decidiu sair do aluguel e financiar um apê. O River debandou, eu continuei dividindo. Tempos bons, vivíamos na noite e eu parecia mais um zumbi do que um ser humano no trabalho. O Jéferson então trabalhava comigo na agência e também o Emerson (lá do endereço II). Arrastei meio mundo de amigos pra aquele trabalho. Numa noite estávamos num coquetel com gente do Governo, na outra estávamos no Ossip enchendo a cara e olhando as deusas, já em outras, de repente, nos víamos entre luzes vermelhas, queijinhos, danças e... bom, melhor deixar assim.
Endereço IX – 2003 – Rua Demétrio Ribeiro – Altos da Bronze (?), Porto Alegre – Uma pensão. O Jéferson me mandou passear, mas eu não queria voltar pra Canoas. Morei um mês, talvez um pouco mais nessa pensão, mas não aguentei. Não existe lugar mais deprimente, acreditem em mim. Os moradores de pensão parecem todos ser feitos de cinzas, são criaturas apagadas, derrotadas, caladas, desconfiadas... enfim, muito triste.
Voltei pra Canoas. Fiquei um tempo com meus pais, mas tive desentendimentos com o velho e o clima ficou tenso demais. Nessa época saí da agência e decidi trabalhar só com free-lances. Deu certo durante um tempo. Tão certo que comprei meu segundo carro. Aí voltei a morar no Endereço III, no mesmo prédio, mas num apartamento diferente. Fiquei menos de um ano lá. Um dia apareceu o Jéferson e me convidou pra morar no apê do Endereço VIII de novo. Ele tava indo pra um doutorado sanduíche na Espanha e ia se ausentar por seis meses. Topei, e junto arrastei o River de novo. Isso já era 2004. Mas desta vez tínhamos outros planos. Eu venderia meu carro e nós daríamos uma entrada pra comprar o apartamento (que nunca me empolgou, mas afinal era um lugar pra morar no centro de Porto Alegre). As coisas não saíram como planejamos, eu continuava desempregado, fazendo uns trabalhinhos aqui e ali e acabei gastando a grana da venda do carro. O River decidiu largar fora (tava puxado pra ele, trabalhar em Canoas, morar no centro e estudar no campus do Vale). Na verdade largou a faculdade também. Então veio morar comigo o meu amigo Fabrício, um cara que tinha passado em Ciências Sociais, também na UFRGS. Ficamos os dois lá por algum tempo, mas então o Jeferson e a Ana Paula (mulher dele) voltaram da Espanha e o Fabrício foi pra uma casa de estudantes. Mas logo depois o Jéferson conseguiu um trabalho em Brasília e eu voltei a ficar sozinho no apê. Por estes tempos pensei em fazer vestibular (animado principalmente pela idéia de fazer natação de graça na ESEF, vejam só). Fiz e passei, inacreditavelmente. Filosofia. Nesse meio tempo veio morar comigo o Abu, que era amigo da Ana Paula. Gente boa ele, mas eu tava numa crise depressiva feroz e não agüentava mais aquele apartamento, por isso saí fora e fui morar noutro lugar.
Endereço X – 2005 - Rua Riachuelo – Centro, Porto Alegre – Este outro lugar se chamava Ceuaca, uma casa de estudantes paga. Eles privilegiavam gente de universidades privadas (pois a pública tinha suas próprias casas de estudantes) e eu acabei indo morar num cubículo que antigamente era um depósito. O lugar não tinha uma janela sequer, cheirava a tinta e mofo e eu o dividia com um sujeito pirado que dormia com a luz acesa. Fiquei uma semana lá e voltei pra casa dos meus pais. Fiquei um ou dois meses com os velhos e então consegui vaga na Cefav, uma casa de estudantes no campus da Agronomia.
Endereço XI – 2005/2006 - Av. Bento Gonçalves – Agronomia, Porto Alegre – Morei na Cefav durante um ano. Seis meses como visitante, seis meses como morador oficial. Conheci muita gente legal lá. Naquela época achava tudo lindo: a faculdade, meus colegas, meus professores, as festas... enfim, a vida universitária. Mas lamentava o fato de morar tão longe dos bares de Porto Alegre. Como tinha voltado a trabalhar na agência de propaganda (num esquema flexível, de meio-turno) achei que podia voltar a pagar aluguel.
Endereço XII – 2006 – Rua Gal. Vasco Alves – Altos da Bronze, Porto Alegre – Neste apê, que era muito bom, só consegui morar porque o meu amigo Leandro Mittmann estava saindo e não deu baixa no contrato (eu não tinha, como em 10 dos endereços até agora, condições de arranjar fiadores e a xaropada toda). Perto do Gasômetro, ótima região, eu tava feliz. Mas não tinha dinheiro pra nada. O pouco que eu ganhava com meu esquema de meio-turno ia todo no aluguel. Aguentei o que deu, mas quando o contrato acabou, pedi pro meu amigo entregar o apê. Voltei pra casa dos meus pais.
Endereço XIII – 2007 - Av. Mariland – Auxiliadora, Porto Alegre – Voltar pra casa dos velhos era sempre uma salvaguarda, mas invariavelmente durava pouco. Eu já não me estressava tanto com eles, mas morar em Canoas, num bairro como a Mathias, é foda. Os ônibus demoram e geralmente vêm apinhados de gente. Mesmo que eu usasse o trem (que por si só já é complicado nos horários de pico) ainda teria que depender do serviço de integração, que funciona pessimamente. Por isso já cheguei procurando um meio de voltar pra Porto Alegre. Isso aconteceu quando meu amigo W.S. me convidou pra morar com ele. O W. tinha um apê na Mariland e até a sua namorada voltar do exterior, eu podia ficar lotado por lá. Foi o que fiz. Não lembro quanto tempo durou isso, mas quando ela retornou eu já tinha um plano pra não ter de voltar pra Canoas outra vez.
Endereço IXV – 2007 – Miguel Tostes – Rio Branco, Porto Alegre – Aluguei um quarto. Neste endereço morava o Marco e suas duas filhas gêmeas, pequeninas. O apartamento era grande, ele alugava quartos para estudantes. Além do meu (o mais barato, pois era o da empregada) havia mais dois de bom tamanho. Era uma mini-república. As pessoas que passavam por lá seguiam o esquema: se trancavam nos seus quartos e tocavam suas vidinhas. Eu não consegui. Preciso interagir com as coisas. Acabei me apegando às meninas e claro, fiquei amigo do Marco. Nessa época comecei a vender livros no Brique da Redenção, aos sábados. Isso durou alguns meses, mas logo desisti. Era cansativo e cada vez dava menos retorno.
Fiquei alguns meses com o Marco e as gêmeas, mas então meu amigo W. foi pro exterior com a namorada e eu voltei pro endereço XIII. 2008/2009. Foi ótimo o tempo que passei lá. Muito tranqüilo. Mas tava indo mal nos estudos, não conseguia conciliar trabalho e faculdade. Abandonei a filosofia e comecei a trabalhar em período integral na agência. Algum tempo depois meu amigo Jéferson se tornou secretário de Cultura em Canoas e me chamou pra compor a equipe. Trabalhei sete meses por lá, mas continuava morando em POA. Quando pedi demissão (convicto de que salário algum compensava o nível de stress do negócio), decidi ficar um tempo sem trabalhar. Consequentemente, não era legal ficar pagando aluguel, por mais simbólico que fosse. Voltei então, vejam só, pra casa dos meus pais. Fiquei por lá um pouco mais de 6 meses. Vendo que minha grana acabava, voltei a bater na porta da agência onde eu trabalhava.
Endereço XV – 2010/2011 – Rua dos Andradas – Centro, Porto Alegre - Consegui o emprego de volta e logo descolei este apartamento em que moro agora (belezinha, direto com o proprietário). Pretendo ficar por aqui um bom tempo, ou pelo menos até o mundo acabar, em 2012. A vista é boa e tenho uma bicicleta lindona que está colocando meu corpinho em dia. Vou me acostumando com o barulho e tocando a vidinha do jeito que dá. Com esta história de vender livros na internet, de vez em quando até sobra dinheiro no fim do mês. É mais do que já tive em outros tempos, então meu dou por satisfeito.
Contando as voltas pra casa dos meus pais e os endereços repetidos, minha média foi de uma mudança por ano desde 1989. É mudança demais. Isso cansa até o mais convicto dos nômades. Se não vier a oportunidade de morar muuuuuito longe destas cercanias, não me mexo daqui.
Porto Alegre, 03 de março de 2026
Hoje, 15 depois, retomo
este relato. Com a mesma intenção: registrar pra não esquecer.
Endereço XVI –
2011/2012 – o apê da Andradas era massa, mas o dono resolveu
voltar. Morei pouco naquele endereço tão simpático. Novamente
endereço VIII. Meu amigo Jeferson continuava em Brasília (tava
grandão por lá). Teve problemas com os inquilinos e eu levei minhas
tralhas pro apê da Bento Martins outra vez. Fiquei um ano. Meu pai
tinha construído uma casa em Cidreira, no litoral norte, e a ideia
de morar longe de tudo e de todos vinha me seduzindo dia após dia.
Tava meio cansado de um trabalho para o qual já tinha voltado várias
vezes. Pedi demissão. Minha chefe brincou: “nunca tive o 'prazer'
de te demitir, é sempre tu que pede pra sair. Um dia vou te
contratar só pra demitir no dia seguinte”. Nesse ano eu já
participava, pela segunda vez, da Feira do Livro de Canoas. Terminou
a Feira, saí do apê e fui morar na praia.
Endereço XVII –
2012/2013 – morar em Cidreira foi uma experiência que mexeu com a
minha cabeça. A solidão é uma coisa muito intensa. Continuava
vendendo livros na internet e vinha a Porto Alegre uma vez por mês.
Nossa casa ficava (fica) numa parte afastada da cidade, perto das
dunas. Então a sensação de estar longe de tudo era acentuada.
Tinha dois ou três vizinhos fixos apenas. E muitos cachorros. Na
praia o que mais tem é cachorro de rua. Uma matilha pra cada quadra,
praticamente. Sem perceber comecei a me sentir responsável pelos
guaipecas da minha rua. Já era vegetariano há quase 20 anos, mas me
via correndo os açougues atrás de restos de carne pra fazer comida
pros bichos. Tinha um fogão à lenha de ferro que ajudava muito.
Aprendi a fazer pão integral e ia tocando a vida. Na alta temporada
era agitado, mas terminava fevereiro e no dia seguinte era tudo a
mais completa solidão. Dá uma sensação de abandono.
Endereço XVIII –
2013/2014 – fui morar em Cidreira no último dia de junho e voltei
no primeiro dia de julho. Um ano. A falta de grana, mesmo lá, tava
pegando. Eu precisava de um trabalho. Voltei pra casa dos meus pais e
fui trabalhar na revista A Granja, no Menino Deus. Uma revista do
agronegócio onde fiquei diagramando por 8 meses. Não tenho orgulho
dessa fase, mas conheci boas pessoas por lá. Com a intenção de
facilitar a vida (era sempre isso), voltei pro endereço XIII. Não
lembro quanto tempo morei lá, mas sei que foi pouco. Logo saí da
Granja e a grana encurtou de novo. Fazia uns freelas de artes
gráficas e trabalhava no bar dum amigo algumas vezes. O bar era
muito legal, temático. Juntava a galera do desenho.
Voltei pra Mathias
Velho, casa dos pais. Meus velhos construíram uma casa nos fundos do
pátio e ali morei um bom tempo com meu irmão River. Provavelmente
de 2015 a 2017. Minha filha morou comigo um pequeno espaço de tempo.
Estava ajudando-a a estudar pro Enem e decidi fazer a prova, meio que
na brincadeira. Fiz uma boa média. Uma média que dava pra entrar em
cursos considerados difíceis (até pra Medicina, lá na puta que o
pariu, eu tinha nota suficiente). Resolvi encarar Arquitetura, que
era um projeto muito antigo. Estudei seis meses na PUC, pelo Prouni
e, no meio do ano, consegui transferência pra UFRGS, pelo Sisu. Tava
uma merda pegar ônibus todo santo dia, mas a empolgação era
grande. Só que logo no início do semestre tive uma crise de ciático
(a segunda que sofria – a primeira foi em 2009). Dor horrível.
Forcei o que deu, mas tive que trancar a faculdade. Tudo isso me
deixou bastante depressivo. Nesta época meus pais tinham trocado a
casa em Cidreira por uma propriedade rural em Camaquã. E foi pra lá
que eu fui.
Endereço XIX –
2017/2018 – morar em Camaquã foi uma experiência parecida com a
de Cidreira. Porque também era um lugar solitário. Zona rural, 25
quilômetros de chão batido saindo da cidade propriamente dita. Nem
celular funcionava lá. Lugar bonito (aliás, se chamava Bonito –
4º distrito de Camaquã), logo fiz amizade com um casal de idade,
vizinhos mais próximos. Capinei muito, arranquei muito mato e
plantei várias coisas. Também foi o lugar onde mais compus músicas.
Vi bugio, umas quatro cobras diferentes, escorpiões, preás, tucano
e mais uma infinidade de pássaros. A única visita fora da família
que recebi foi a do meu amigo Rodrigo. Me pegou capinando quando
chegou. Fiquei 8 meses por lá. Depois voltei e resolvi retomar a
faculdade de Arquitetura.
Endereço XX – 2019 –
na faculdade eu era o cara de 48 anos no meio da gurizada de 18
(tinha um colega – paraense – com 16!). Logo surgiu a
oportunidade de dividir apê com um deles. Fui morar com o Felipe na
Demétrio Ribeiro, quase esquina com a Espírito Santo. Foi bom. O
cara era gente fina e a gente dividia as agruras de um curso puxado
pra caralho.
Endereço XXI – 2020
– meu amigo Jeferson agora morava num apê imenso com cinco quartos
e quatro banheiros na Dona Laura, bem em frente ao Caixeiros
Viajantes. Me convidou a ir pra lá, pois novamente ia morar em
Brasília. Nos juntamos eu, meu irmão River e meu colega de apê
Felipe e encaramos um aluguel um pouco mais caro (ainda assim barato
considerando o imóvel). Só que era o início da pandemia. As aulas
foram interrompidas. Ficamos meio sem eira nem beira. Eu ia bem em
todas as cadeiras da Arquitetura, menos Cálculo, que me rodara,
contando a PUC, umas quatro vezes. Somando pandemia, a
impossibilidade real de passar em Cálculo e a sensação de estar
bem deslocado no meio da gurizada, abandonei o curso pela segunda e
última vez. Saí do apê (meu irmão e Felipe ficaram) e voltei pra
casa dos meus pais.
Mais perdido do que
nunca, decidi fazer uma mudança radical de verdade. No fim de 2020
comprei uma passagem de avião e fui pra Salvador. A intenção era
tentar a vida por lá. Mas de dois amigos que poderiam me hospedar,
um estava com problemas familiares e o outro tinha voltado pra
Brasília durante as férias. Fiquei uma semana naquela que é uma
das cidades que mais forte habitam o imaginário brasileiro. Me
decepcionei. Aluguei um quarto num hotel furreca e fiquei alguns dias
perambulando pelo centro. Achei tão decadente quanto o de Porto
Alegre. O Pelourinho super sem graça. Igreja pra todo o lado. Talvez
fosse por causa da pandemia. Nos dois últimos dias mudei pra parte
da praia, logo ali no início, no Farol da Barra. Mais bonito, com
certeza, mas eu já tava decido a voltar. Um sentimento estranho de
saudade e deslocamento. Voltei de ônibus, passando por Chapada
Diamantina, Goiânia, Brasília, triângulo mineiro, São Paulo,
Curitiba e Florianópolis. Três horas pra ir, três dias pra voltar.
Endereço XXII – 2021
- de volta à terrinha dei um jeito de alugar um apartamento na José
do Patrocínio, Cidade Baixa. Sonho antigo morar ali. Mas a pandemia
tinha mudado tudo e eu, pra variar, tava sem grana. As vendas na
Estante Virtual tavam despencando. Consegui segurar as pontas por
três meses. Saí devendo uma multa contratual que me rendeu ligações
ininterruptas e e-mails por uns dois ou três anos seguidos. Com o
rabo entre as pernas, pedi pra voltar a morar com o meu irmão, que
continuava no endereço XXI.
Endereço XXIII –
2021/2022 - moramos mais algum tempo na Dona Laura, mas então meu
amigo Jeferson anunciou que ia botar o apartamento no AirBnB. Meu
irmão alugou um outro apê lá pros lados do postão do IAPI, porque
ficava perto do seu trabalho e eu consegui, com uma imobiliária de
Canoas (que já tinha me alugado os endereços II e III) um
apartamento muito barato uma rua pra baixo (ou pra cima) da Dona
Laura.
Endereço XXIV –
2023/2025 - esse apê, grande (dois quartos mais dependência) e bem
localizado (Castro Alves, esquina com a Florência Ygartua) fica num
prédio que talvez seja o mais detonado do Rio Branco. E o
apartamento só me saiu muito barato porque era inabitável.
Arregacei as mangas e fiquei seis meses trabalhando duro pra deixar
aquilo com cara de casa. Fiquei bons três anos morando ali. Em algum
momento destes três anos o River veio morar comigo.
Endereço XXV – no
início de 2025 recebi uma generosa doação de livros e estantes da
minha amiga Maricélia. Isso foi determinante pra eu juntar coragem e
abrir meu sebo. Mudei pra Marechal Floriano, logo depois cima do
Zaffari. Fiquei dois meses trancado na loja organizando as coisas.
Morava num mezanino. Não tinha chuveiro e nem uma pia decente pra
lavar a louça. Foi bem complicado, mas consegui ficar neste esquema
por oito meses. Abri o sebo na exata metade de 2025. No fim do ano,
precisando de mais espaço na loja e de um pouco de conforto, decidi
alugar mais um apartamento.
Endereço XXVI –
2026/* - no prédio da minha loja tinha um apê pra alugar. Fica aos
fundos e tem um pátio. A loja tem uma porta que dá pra este pátio.
Construí uma escada e agora vou passar parte dos livros para o
apartamento, que é grande. Estou por aqui agora. Mas a vida segue
atropelando. Talvez tenha que sair em breve. Daqui 15 anos faço
outro relato.
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