quinta-feira, 19 de abril de 2012

Aborto


Não importa quantos e quão pertinentes sejam os argumentos a favor do aborto, uma coisa é fato: trata-se de tirar uma vida, trata-se de assassinato. Não tem eufemismo nem mudança de paradigma que vá atenuar isso. Num mundo ideal não haveria gravidez indesejada, não haveria estupro, não haveria abandono. Mas como não vivemos no mundo ideal é preciso abordar estas questões e buscar a melhor maneira de solucioná-las. Penso que isso se faz não com senso prático, pragmático (ditado por este estilo de vida capitalista que se leva), mas recorrendo à ética. E por que ética? Porque é o que temos de melhor, é o que nos humaniza. É um regulador moral que pode ser usado universalmente.
Do ponto de vista ético, não tem o que discutir: não se tira uma vida. Esse papo de que “a mulher é dona do seu corpo” vale pra qualquer coisa que ela queira fazer com o próprio ATÉ O MOMENTO EM QUE O CORPO DEIXA DE SER UM SÓ. Até o momento em que existe um outro ser humano ali. A mulher nasceu com a capacidade de parir e, consequentemente, com uma responsabilidade. É uma contingência. É inelutável, incontornável. É um fato que pede apenas resignação.  É claro que essa responsabilidade é também do homem. No caso de um aborto, esse homem é, indiretamente, também assassino desta criança, mas o peso maior desta decisão e deste ato, será sempre da mulher. É ela quem vai sofrer o baque emocional. É ela quem vai ter seu corpo invadido. É ela quem vai correr o risco de trauma ou mesmo de morte. Não é o mundo ideal. É muito peso sobre os ombros, mas o que uma mulher pode fazer senão ser forte? E ser forte (eu pediria perdão às feministas se me preocupasse com o perdão delas) não é decidir por um ferro invadindo o útero.
É chover no molhado dizer que as pessoas deveriam tomar mais cuidado quando trepam. As causas que levam a uma gravidez são as mais variadas e as razões que levam à interrupção de algumas destas gestações são também inúmeras. Muito dessa bagunça depende, basicamente, de educação e qualidade de vida para ser solucionado. Estamos longe disso. Milhares fetos vão continuar parando nas latas de lixo. Cada vez mais, provavelmente. O aborto vem conquistando adeptos ao longo dos anos. Vem ganhando cara de “avanço político”, “avanço de mentalidade”. Sou um cara de esquerda (e ateu), execro preconceitos e conservadorismos perniciosos, mas acho que esta “simpatia” pela causa do aborto é um dos maiores equívocos do nosso tempo. É bárbaro. É desumano.
 “Ah, a criança vai nascer e viver na pobreza”, “sem um pai”, etc. Buenas, não importa. O direito primordial é o de nascer – uma vez que já é uma vida, já é um ser humano. Como vão se resolver as coisas depois neste mundo torto é outra história. Ela pode ser adotada, ela pode acertar na mega-sena, ela pode estudar e vir a ser alguém muito importante... enfim, ela pode. Aquele feto é um ser humano com um futuro em aberto, tudo pode acontecer. Uma mãe é a ligação mais forte, é o sustentáculo dessa nova vida, mas não tem o direito de decidir sobre ela. Pelo contrário, tem a obrigação moral de tentar torná-la a melhor possível (um pai também, e graças aos céus hoje existe exame de DNA e uma lei bastante rigorosa pra garantir a pensão alimentícia de uma criança – isso não contempla todas as situações, mas já é um alento para boa parte delas).
E vou mais longe. Acho que o aborto é um erro (do ponto de vista humano e filosófico) mesmo em casos de estupro e incesto. Não sou insensível a toda carga psicológica aí envolvida. Não tenho dúvidas de que uma mulher atingida pela violência nunca mais será a mesma. Imagino todas as angústias e contradições que vive uma mãe na obrigação de dar afeto ao fruto de um ato indesejado. Sei que é pedir demais para algumas delas. Mas a questão é: um erro justifica outro? Esse feto, essa criança se desenvolvendo na barriga é um outro ser humano, não é o violentador. Essa criança é também um pouco (ou muito) da mãe. Ela pode vir a ser o melhor ser humano do mundo se for bem educada. Mas principalmente é uma coisa viva, com coração, veias, sangue... tudo isso pulsando. Um aborto é o fim desta coisa viva, é um assassinato. Será que uma pessoa tem o direito de matar outra pra garantir sua paz de espírito? Será que não existem outras maneiras de conseguir esta paz? As pessoas se horrorizam quando veem cenas de morte na televisão. É curioso que muitas encarem o aborto com mais complacência. Então não é a mesma coisa? Não se trata de uma vida humana sendo eliminada? Por favor, deixem de hipocrisia!
Acho o aborto justificável apenas em duas circunstâncias: quando existe comprovado o risco de vida para a mãe (ainda assim, com muitas ressalvas, porque “risco” significa que pode ou não acontecer alguma coisa) e em casos de anencefalia. Todo o resto, inclusive casos de crianças que nascem com problemas (síndrome de Down, má formação, etc), devem ser assumidos corajosamente. É ruim, claro. É anular parte da nossa vida pra viver a de um ser com necessidades especiais. Tem vergonha, constrangimento, cansaço, dor, tristeza, enfim, um monte de sentimentos desagradáveis nestas situações. Mas o que mais se pode fazer quando entendemos que somos humanos? Matar não nos torna melhores de maneira alguma.

E claro, também corremos o risco de ter momentos de muita alegria com estes filhos não abortados. 

Post-scriptum: hoje, quase no início de 2015, minha opinião sobre este assunto mudou. Acho importante registrar isso. O aborto sempre será uma coisa atroz, cruel. A discussão mais urgente - e que nos obriga a pensar na descriminalização da prática - é sobre evitar a morte anual de centenas de mulheres (pobres) que recorrem a abortos de alto risco no país. Questão de saúde pública. Num mundo mais justo as políticas de educação e saúde seriam intensificadas. No nosso, temos que evitar, primeiro, que as mulheres morram.
Post-scriptum II: conheci, ao longo da vida adulta, pelo menos uma dezena de mulheres que fizeram aborto (devo ter convivido com outras mais, mas que mantiveram segredo). Todas essas que conheci não se enquadravam na definição "pobre". Todas tinham condições econômicas de sustentar uma criança. Recorreram ao aborto assumindo que um filho, naquele momento das suas vidas, seria uma responsabilidade muito grande, não cabia nos seus planos. Bom... hoje percebo que é um tanto cômodo ficar aqui, na minha condição de homem, pregando que as mulheres não deveriam abortar. Num mundo torto, eu quis pintar as coisas certinhas. Sou contra o aborto, sempre serei. Se tivesse participação no nascimento de uma criança, assumiria a responsabilidade sozinho inclusive. Mas isso vale pra mim, não me atrevo (agora) a entrar no universo dos outros. Espero que as pessoas enxerguem, cada vez mais, as coisas sob uma ótica mais humana e que o mundo se torne menos triste. Por enquanto, só isso.

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